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6/12/2006
5 perguntas: Digestivo Cultural
Julio Daio Borges é o homem que fez da autopublicação uma profissão; e sua criação, o Digestivo, é referência no jornalismo cultural online
Tatiana Dias

Há seis anos – quando a internet praticamente se resumia aos grandes portais - Julio Daio Borges criou o Digestivo Cultural, uma revista eletrônica cheia de bons textos, dicas culturais e resenhas. Depois de experimentar e acertar os formatos, hoje, o Digestivo é sucesso absoluto – 350 mil pessoas acessam mensalmente o portal.

No começo, era só Julio quem escrevia as resenhas e dicas. Depois, chamou uns amigos jornalistas e ali estava formado o primeiro time de colaboradores. Seis anos depois, ele tem no quadro de colaboradores ensaístas do gabarito de Daniel Piza, Ruy Castro e Ivan Lessa – cujos textos convivem em harmonia com os de Julio, de jornalistas iniciantes, estudantes e curiosos que comentam. A única restrição é que o conteúdo seja bom – e nesse quesito, Julio é irredutível. É só ir lá para conferir.

Foi essa preocupação com a qualidade – e a conseqüente seleção de público - que garantiu ao Digestivo parceiros que mantém o portal. Livrarias, editoras e casas de cultura se interessaram na parcela de público que o Digestivo abocanhou de uma vez só. Júlio - formado em engenharia pela Poli-USP - fez da autopublicação uma profissão. Veja o que ele tem a dizer sobre o Digestivo:

Por que se autopublicar?
A questão talvez seja: por que não? Muitas pessoas ainda não perceberam que não precisam mais viver sob o jugo da velha mídia para se informar, para formar opinião, para discutir idéias. Muita gente ainda reclama da televisão, do rádio, da revista e do jornal impressos, mas também ainda não percebeu que não precisa consumir mais nada disso, que existem incontáveis opções de novas mídias na internet – e que, se a pessoa ainda assim não estiver satisfeita, poder criar, desenvolver e fazer acontecer a sua própria mídia. Diante desse quatro, autopublicar-se é quase uma obrigação.

Você acha que o ambiente universitário ajuda a formar o espírito crítico? Como foi para você?
Comigo foi uma decepção, por isso, conseqüentemente, não acho que o ambiente universitário – pelo menos o que eu conheci (a Politécnica da USP dos anos 90) – ajude a formar espírito crítico. Por outro lado, a época da universidade, normalmente, é aquela em que as pessoas estão com a cabeça mais aberta, ainda jovens e interessadas em conhecer o “novo” (nem que seja o novo só pra elas), e em ter “novas” experiências (novas só pra elas talvez...). Assim, embora eu não guarde boa recordação do meu ambiente universitário, acredito que pode ser, sim, um período muito rico, para experimentar e para formar espírito crítico.

O que você ganha com seu blog?
No Digestivo, temos um blog, que é parte de um projeto maior, o site (a revista eletrônica); e, de certa forma, esse blog não só é “meu”: é dos demais colaboradores também... Enfim, com o Digestivo, acho que ganhamos todos. Virou uma plataforma de lançamento para novos talentos (no melhor sentido do clichê). O mais legal, hoje, é ter estudantes de jornalismo, jornalistas recém-formados, jornalistas estabelecidos e até veteranos da grande imprensa. Repetindo: acho que todos eles ganham com o Digestivo. E os Leitores ganham com os textos deles (a seção Comentários é, como eu sempre digo, a segunda mais acessada do site inteiro...). E os parceiros, no fim da cadeia, ganham com o retorno para suas iniciativas.

Qual é a melhor e a pior coisa desta época de transformações?
A melhor coisa é vivê-la, fazer parte dela. Juro que não entendo essas pessoas que estão vendo a revolução acontecer e que ainda conseguem ficar sentadas no sofá com um ar blasé – sem participar, de alguma forma, deste momento. E a pior coisa talvez seja, justamente, alguns setores que insistem ainda em dizer que “está tudo igual”, que essas transformações “não são tudo isso” e que, a rigor, “nada mudou”... Quando as tecnologias estão devorando umas às outras, as mídias nascem e morrem todos os dias, e a comunicação, de virtualmente “todos para todos”, é algo sem precedentes na História humana.

E qual é o seu papel – e da sua publicação – nesse contexto?
Nosso papel aqui (posso falar no plural?) é expandir os limites do jornalismo cultural. Desde a seleção de novos talentos, como eu já disse, até o encontro de novos leitores (que as publicações tradicionais nunca atingiram), até a formação de novas bases de sustentação para que o jornalismo cultural – pela primeira vez na história do Brasil – seja um negócio lucrativo. Por enquanto, estamos conseguindo. No final das contas, não é “missão” da internet, mas ela está colocando abaixo todo o sistema (establishment) – todo o “cartel de entretenimento”, como diz Dan Gillmor. É uma mudança cultural que só não vê quem quer. E nós estamos nela!

Visite: www.digestivocultural.com.br

Saiba mais sobre a série Autopublicação na prática.
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